Fia a aranha
calmamente sua teia. Tem uma sabedoria ímpar, uma paciência milenar, um coração
que parece nem pulsar.
Uma mosca está
ali, a sua espera. Já nem se debate mais, aceitou sua entrega. Não importa
quantas vezes fuja, vai cair naquela rede de novo, e de novo, até que a pequena
aranha por fim acabe com sua vida.
Dona aranha,
malandra que é, nem se move. Nem olha a pobre mosca, com um desdém comovente.
Primeiro a
mosca se debatia numa tentativa de fugir para bem longe daquele fim horrendo. E
se libertou inúmeras vezes. A fiandeira não fazia nenhum esforço para manter a
prisioneira, simplesmente mudava estrategicamente sua teia de lugar.
A mosca, num
dado momento, percebeu isso. Tentando entender a dinâmica desse universo
peculiar, arriscou-se e se depositou na teia calmamente, como que numa pesquisa
antropológica de alto risco. E nada, nenhuma atenção. Estava livre. A aranha se
distraia com outra refeição duramente capturada.
O mundo
inteiro virou aquele pequeno lençol pegajoso, que já não era mais itinerante.
Todo o mistério da vida estava ali, para a pobre mosca. Não entendia o porquê
da desatenção que sofria. Será que era muito magra, muito feia, muito chata,
muito estranha? Nessas indas e vindas frenéticas, buscando soluções e conseguindo
cada vez mais perguntas, chegou a questionar sua própria existência.
Estava
decidida: ela não existia. Parecia muito estranho, mas era a única resposta
cabível. Todo o peso das dúvidas desvaneceu. Todas as dores sanaram. Leve e
despreocupada, se recostou docemente sobre a teia, balançando com calma. Já não
havia mais o que temer: se não existia, não haveria morte.
Aquele minuto
de olhos fechados, ao vento, pareceu uma vida inteira. Uma transcendência sem
igual. Até uma terrível sensação de ausência. Sentia falta da aranha. Seria
amor? Abre os olhos confusa. Sem muito tempo para absorver informações, percebe
seu premeditado e desconstruído destino se assomar numa velocidade
inimaginável. Dor lancinante, falta de ar, silêncio, mesmo com tanta coisa a falar.
E no segundo seguinte, torna-se um adorável bolinho proteico numa pança
estufada e satisfeita.
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